[E nem vou perguntar onde estão as vigas desaparecidas...]
Não é altamente estranha a pressa com que a prefeitura do
Rio se dispõe a implodir a Perimetral?... Afinal, se querem substituí-la por
outra via expressa, por que não construir antes a via expressa?... A parte
principal desta via, um túnel sob o Centro do Rio, ainda demora a ficar pronto:
por que destruir a Perimetral antes disso?...
Em 24/11/2011, falando a O Globo, o prefeito Eduardo Paes disse: “Derrubar a Perimetral é a última coisa que vai acontecer, depois que tivermos
o túnel como alternativa.”
No entanto, a partir daí fizeram tudo para demolir a
Perimetral, e já!...
Está sendo aplicada a manjadíssima “política do fato consumado”... Enquanto isto, a consciência geral é muito lerda... A proximidade do desastre está acordando a população, que tem se manifestado, ainda que esparsamente, e é mais um motivo de urgência para o prefeito, que não quer perder sua “janela de oportunidade”...
Está sendo aplicada a manjadíssima “política do fato consumado”... Enquanto isto, a consciência geral é muito lerda... A proximidade do desastre está acordando a população, que tem se manifestado, ainda que esparsamente, e é mais um motivo de urgência para o prefeito, que não quer perder sua “janela de oportunidade”...
O túnel da Via Expressa está longe de ser concluído, a
prefeitura reconhece que as Vias Binárias são para acesso interno ao Porto
"Maravilha" (não atendem a um fluxo rápido e intenso) e faltam três
anos para as míticas Olimpíadas (que servem de desculpa para tudo, disse ele): então, por
que começar a destruição da Perimetral antes de construir a substituta?... Por
que a pressa?...
Por uma razão simples: ninguém garante que dará certo...
As desculpas surgirão (“houve erros de projeto”), a culpa
será jogada sobre os cariocas (“o Porto Maravilha não é área de passagem”) e logo
outras soluções mágicas (para felicidade das mesmas empresas) serão efetivadas...
Talvez seja este o propósito fundamental: destruir para construir. E destruir
de novo para construir de novo. E que haja sempre um novo projeto a ser pago pelos cofres públicos...
Será que o Porto "Maravilha" não é, em si, um “erro
de projeto”?... Ou melhor, será que o Porto "Maravilha" não é, todo ele,
um erro?...
Há gente que pensa que estas mudanças urbanas têm razões técnicas... Não percebem (será mesmo?...) que a técnica está sempre a serviço do poder, o da política ou o dos negócios... A governança local pelo “método patético” é um bom exemplo.
Há gente que pensa que estas mudanças urbanas têm razões técnicas... Não percebem (será mesmo?...) que a técnica está sempre a serviço do poder, o da política ou o dos negócios... A governança local pelo “método patético” é um bom exemplo.
Outros, ao apoiar a derrubada da Perimetral, dão como motivação
(ou desculpa?) a evolução do “design urbano” (que é uma versão “maquiada” das "razões
técnicas"), como se a cidade fosse um mero objeto (muito valioso...). É um
conceito que está na moda e a toda hora vira notícia em O Globo, que promove
eventos e seminários, indicação do sentido que tem. Na busca de “consenso”, os
divulgadores e propagandistas dos projetos “revitalizadores” se esforçam para
ressignificar conceitos, como na recente exaltação à “gentrificação” do Rio de
Janeiro...
Cabe aqui citar a prof. Otília
Arantes, in A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consensos :
“Associados aos políticos, ao grande capital e aos promotores culturais, os
planejadores urbanos, agora planejadores-empreendedores, tornaram-se
peças-chave dessa dinâmica. Esse modelo de mão única, que passa invariavelmente
pela gentrificação de áreas urbanas "degradadas" para
torná-las novamente atraentes ao grande capital através de mega-equipamentos
culturais, tem dupla origem, americana (Nova-York) e européia (a Paris do
Beaubourg), atingindo seu ápice de popularidade e marketing em Barcelona, e
difundindo-se pela Europa nas experiências de Bilbao, Lisboa e Berlim.”
Dentro do “design urbano” entram os famosos “prédios-âncora”,
como seriam, no Porto “Maravilha”, os museus do Mar e do Amanhã, acrescidos de esplanadas, cercadas de prédios
longilíneos, por onde passam bondinhos estilizados (igualzinho às mais modernas
cidades européias...), aquele tipo de urbanização que dá lindos desenhos ilustrativos.
Pena que sobre o transeunte, mero detalhe na paisagem, um vultozinho na
imagem da ampla praça vazia, baterá um sol (ou chuva) tropical, carioca e
brasileiro, de rachar a cuca de qualquer um (não dos designers, que não
vivenciarão o projeto concreto)...


Se fizeram um jardim sobre um elevado, o HighLine, em Nova
York (veja o vídeo), por que não fazer, no Rio, um parque por baixo da
Perimetral, bem conservado (dinheiro não falta...), iluminado à noite, na
sombra de dia?...

Pois, sem recursos oficiais, sem maiores projetos, isto já aconteceu na Praça XV: a criatividade popular fez surgir a Feira de Antiguidade, aos sábados e, aos poucos, uma espontânea feira de produtos e serviços populares, que atende a quem pega as Barcas.
O cúmulo da ironia é que a
Perimetral, uma via expressa para carros, será substituída por um túnel, em que
passará outra via expressa... para os mesmos carros!...
Ora, se o prefeito e o governador
do Rio se entendem tão bem, se estão imbuídos do mais alto espírito público,
por que eles não propõem (e são ideias que já foram postadas aqui) que passe
por este túnel (em vez de três quilômetros de carros embutidos) um ramal do BRT TransBrasil ou, muito melhor, uma linha nova do Metrô (que nem em Curitiba o BRT dá mais conta)?...
Afinal, vem aí (aguentemos!...)
a derrubada da Perimetral, atendendo fielmente à
cartilha da modernização das cidades “internacionais”.
Em texto sobre a aplicação desta
“cartilha” (“Pátria, Empresa e Mercadoria - Notas sobre a estratégia
discursiva do planejamento estratégico urbano”), o prof. Carlos Vainer (IPPUR-UFRJ) afirma que,
no Rio de Janeiro, “um
consórcio empresarial e associações patronais, em parceria com a Prefeitura,
conduziram o processo de maneira absolutamente autoritária e fechada à
participação de segmentos de escassa relevância estratégica”.
Sabemos bem disso, mas há mais... Vivemos uma versão cruel do velho provérbio “os cães ladram e a caravana passa”: nós, os cariocas, somos os cães, explorados por um insensível laboratório de “design urbano”...
Sabemos bem disso, mas há mais... Vivemos uma versão cruel do velho provérbio “os cães ladram e a caravana passa”: nós, os cariocas, somos os cães, explorados por um insensível laboratório de “design urbano”...
Em suma, tudo já foi falado: o
presente está dominado.
Mas, pergunto: que gosto terá este futuro mal
passado?...